Edgar
Allan Poe
O gato Preto
Edgar Allan Poe, Agosto de 1843
3663 palavras [± 15 minutos de leitura]
Não espero nem peço que se dê crédito à história
sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar.
Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus
próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda
a certeza, não sonho. Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de
aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e
sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos
domésticos. Devido a suas consequências, tais acontecimentos me aterrorizaram,
torturaram e instruíram.
No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim,
quase não produziram outra coisa senão horror mas, em
muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais
tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum uma
inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha,
que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que
uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.
Desde a infância, tomaram-se patentes a docilidade
e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente,
que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente,
de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava
com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes
dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu
caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de
prazer.
Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz,
não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da
satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz
de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que
tiveram ocasiões frequentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil
fidelidade de um simples homem.
Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha
mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais
domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis
de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e
um gato.
Este último era um animal extraordinariamente
grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Ao referir-se à sua
inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto
supersticiosa, fazia frequentes alusões à antiga crença popular de que todos os
gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a
isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.
Pluto assim se chamava o gato era o
meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me
seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me
acompanhasse pela rua.
Nossa amizade durou, desse modo, vários anos,
durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento enrubesço ao confessá-lo sofreram, devido ao demônio da intemperança,
uma modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais
irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar
linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la
com violência.
Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada
em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os
maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração
suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo
algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou
afeto, cruzavam em meu caminho.
Meu mal, porém, ia tomando conta de mim que
outro mal pode se comparar ao álcool? E, no fim, até Pluto, que começava agora a
envelhecer e, por conseguinte, se tomara um tanto rabugento, até mesmo Pluto
começou a sentir os efeitos de meu mau humor.
Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de
uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a
minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a
mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se,
instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia
que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que
diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser.
Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre
animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos!
Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa
abominável atrocidade.
Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão dissipados já os vapores de minha orgia
noturna, experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto
de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco,
pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos,
afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.
Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A
órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não
parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como
bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação.
Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio,
sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me
amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então,
como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da
perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante,
tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos
primitivos do coração humano uma das faculdades, ou sentimentos primários, que
dirigem o caráter do homem.
Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações
vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso
não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso
juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como
tal?
Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa
de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si
mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi
o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira
ao inofensivo animal.
Uma manhã, a
sangue frio, meti- lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no
galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração
transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me
amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse
contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado um
pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso
era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso
e infinitamente terrível.
Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão
cruel, fui despertado pelo grito de "fogo!". As cortinas de minha
cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha
mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi
completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então,
me entreguei ao desespero.
Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa
e efeito entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou
descrevendo uma sequência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa
cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As
paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era
constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao
qual se achava a cabeceira de minha cama.
O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à
ação do fogo coisa que atribuí ao fato de ter sido ele
construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e
muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte
dela, As palavras "estranho!", "singular!", bem como outras
expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei- me e vi, como
se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato
gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma
corda em tomo do pescoço do animal.
Logo que vi tal aparição, pois não poderia
considerar aquilo como sendo outra coisa, o assombro e terror que se me
apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O
gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos
de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter
retirado o animal da árvore, lançando-o, através de uma janela aberta, para
dentro do meu quarto.
Isso foi feito, provavelmente, com a intenção de
despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha
crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé.
A cal do muro, com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça, produzira a
imagem tal qual eu agora a via.
Embora isso satisfizesse prontamente minha razão,
não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o
surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de
tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato
e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que
parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do
animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então frequentava, outro bichano
da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.
Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido,
num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um
objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que
constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos
que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter
visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era
um gato preto, enorme tão grande quanto Pluto e que,
sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único
pelo branco em todo o corpo e o bichano que ali estava possuía uma mancha
larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do
peito.
Ao acariciar lhe o dorso, ergueu-se imediatamente,
ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe
causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao
dono a sua aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não
o conhecia; jamais o vira antes.
Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a
voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que
o fizesse detendo-me, de vez em quando, no caminho, para
acariciá-lo. Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse
a casa, tomando- se, logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher.
De minha parte, passei a sentir logo aversão por
ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava. Mas a verdade
é que não sei como nem por quê seu evidente amor por mim me desgostava e
aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no
mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a
lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente.
Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra ele qualquer
violência; mas, aos poucos muito gradativamente, passei a sentir por ele
inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como se
fugisse de uma peste.
Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal
foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como
Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. Tal circunstância, porém,
apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois,
como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que
constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de
muitos de meus prazeres mais simples e puros.
No entanto, a preferência que o animal demonstrava
pela minha pessoa parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por
ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer com
que o leitor compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava-se embaixo de
minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias.
Se me levantava para andar, mentias-me entre as
pernas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas garras em
minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse
ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à
lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo apresso-me
a confessá-lo, pelo pavor extremo que o animal me despertava.
Esse pavor não era exatamente um pavor de mal
físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha
confessar sim, mesmo nesta cela de criminoso, quase me
envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram
aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha
mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a
que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele
estranho animal e o outro, que eu enforcara.
O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal,
embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas,
lentamente, de maneira quase imperceptível que a
minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa,
adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de
um objeto cuja menção me faz tremer... E, sobretudo por isso, eu o encarava
como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me
teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a
imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia
e de morte!
Na verdade, naquele momento eu era um miserável um ser
que ia além da própria miséria da humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão
fora por mim desdenhosamente destruído... uma besta- fera que se engendrara em
mim, homem feito à imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável
infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do
descanso!
Durante o dia, o animal não me deixava a sós um
único momento; e, à noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível
terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme
peso encarnação de um pesadelo que não podia
afastar de mim pousado eternamente sobre o meu coração!
Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco
que restava em mim de bom. Pensamentos maus converteram-se em meus únicos
companheiros os mais sombrios e os mais perversos dos
pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas
e por toda a humanidade e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a
súbitos, frequentes e irreprimíveis acessos de cólera, minha mulher “pobre
dela!” não se queixava nunca convertendo-se na mais paciente e sofredora das
vítimas.
Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das
tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos
obrigava a morar, O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me
exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o
terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que
teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço,
detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo
que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta
instantaneamente, sem lançar um gemido.
Realizado o terrível assassínio, procurei, movido
por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da
casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos.
Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um
instante, em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los por meio do fogo.
Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo
ao poço do quintal. Mudei de ideia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse
uma mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da
casa. Finalmente, tive uma ideia que me pareceu muito mais prática: resolvi
emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.
Aquela adega se prestava muito bem para tal
propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco
antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a
umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes,
produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se
assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar
os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem
que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita.
E não me enganei em meus cálculos. Por meio de uma
alavanca, desloquei facilmente os tijolos e tendo depositado o corpo, com
cuidado, de encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder
recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam
anteriormente. Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a precaução possível,
preparei uma argamassa que não se podia distinguir da anterior, cobrindo com
ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois
tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada.
Limpei o chão com o maior cuidado e, lançando o olhar em tomo, disse, de mim
para comigo: "Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão".
O passo seguinte foi procurar o animal que havia
sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se,
naquele momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua
sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha
cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele
estado de espírito. Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado
alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. Não apareceu também
durante a noite e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada
em casa, consegui dormir tranquila e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso
daquele assassínio sobre a minha alma.
Transcorreram o segundo e o terceiro dia e o meu
algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre.
O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa.
Não tomaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa
ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi
prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha
casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como
coisa certa a minha felicidade futura.
No quarto dia após o assassinato, uma caravana
policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa
investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em
que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais
pediram- me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um
canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram novamente
ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu coração batia calmamente, como
o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta a ponta. Com os braços
cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia
estava inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me
inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo
de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e também para
tomar duplamente evidente a minha inocência.
Senhores disse, por fim, quando os policiais já subiam
a escada, é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer
suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia.
Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída...
(Quase não sabia o que dizia, em meu insopitável desejo de falar com
naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída.
Estas paredes os senhores já se vão? estas paredes são de
grande solidez.
Nessa altura, movido por pura e frenética
fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na
parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração.
Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás!
Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da
tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma
criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo,
completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade
de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos
condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.
Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar.
Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o
grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror. Decorrido um
momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O
cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado,
apareceu, ereto, aos olhos dos presentes.
Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o
único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou
ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco.
Eu havia
emparedado o monstro dentro da tumba!
Sobre o Conto:
O Gato Preto (em inglês: The
Black Cat) é um conto de Edgar Allan
Poe. Foi publicado em uma edição do Saturday Evening Post de 19 de agosto de 1843. É um estudo da psicologia da
culpa, também comparado ao conto "The Tell-Tale Heart", também de Poe.
Alusão:
O uso da palavra
'Gato Preto' evocou várias superstições,
incluindo a ideia dita pela esposa do personagem de Allan Poe que eles todos
são bruxas em
disfarce. O gato na história de Edgar Allan Poe chama-se Pluto em referência
ao deus grego do Inferno, ou ainda, do mundo
subterrâneo para onde os mortos iam, já que a noção de inferno como a
conhecemos foi disseminada pela cultura judaico-cristã.
No cinema:
"O Gato
Preto" foi adaptado para o cinema em 1934, num filme que trazia
no elenco Bela Lugosi e Boris Karloff.
Em 1941,
veio outro filme com Lugosi e Basil
Rathbone, sendo uma adaptação que traz muitas semelhanças com a
história.
Muitas outras
adaptações vieram, mas a mais fiel à história original veio no meio de uma
trilogia de filmes de Roger Corman, intitulado Tales of Terror em 1962. Entretanto, o filme
todo teve participação de Vincent Price como
o "chefe", e, no segmento, ele foi papel de suporte com Peter Lorre interpretando
o personagem principal. O filme de 1934, Maniac, também
adaptou livremente a história. Nesta versão, segue um antigo ator vaudeville que
mata um médico e coloca o cadáver em um estranho lugar para esconder o seu
crime.
O episódio da
série 'Masters Of Horror' ("The Black Cat"), produzido por Stuart
Gordon e escrito por Dennis Paoli & Stuart Gordon é também ele baseado
neste conto. Nos papéis de Edgar Allan Poe e Virginia Poe estão Jeffrey Combs e
Elyse Levesque, respectivamente.
